"O swell de Sul continua na área com séries de até 1,5 metros. No decorrer do dia, vai ganhar ainda mais intensidade e as séries devem ultrapassar 2 metros no final da tarde.
Para quinta-feira, os gráficos indicam que o swell continua ganhando intensidade e começa a receber influência de Leste. O vento Sul ameniza no decorrer do dia. O período sobe para mais de 10 segundos. Muito provavelmente vai dar altas no final da tarde."

As palavras acima acariciam os ouvidos de qualquer surfista. Para nós brasileiros então, abrir o site e ver uma previsão como essa nos causa um verdadeiro tesão! Ficamos loucos, começamos a pensar na nossa agenda, que desculpa dar ao chefe ou a que amigo pedir para assinar a lista de presença daquela aula chata? Nada mais faz sentido que não as altas ondas que vão quebrar no final de tarde. Parece que todos os problemas do mundo foram solucionados e que encontramos a verdadeira felicidade. Qualquer um que gosta de pegar onda sabe do que eu tô falando...
Outro dia, minha injúria por ter que estar em São Paulo enquanto meus amigos pegavam altas lá em casa não me deixava fazer nenhuma de minhas obrigações. Foi então que eu me lembrei da velha frase da minha mãe: “Esse moleque não quer saber de mais nada, só pensa em surfar!”. E parei, pela primeira vez, pra refletir sobre isso:
“É... são poucas, se existirem, as coisas que nós colocamos a frente do surf. Isso é que é paixão...ou...amor...ou...egoísmo?! Não, não pode ser egoísmo! Surfar não faz mal a ninguém. Sou eu e o mar, só.”
Eis que ouço no noticiário que já chega a 80 o número de mortes causadas pela ação das chuvas no Rio de Janeiro. “Cacete meu! Tá chovendo pacas ultimamente, só desastre”, pensei.

De repente tive um estalo. A frente fria que traz as ondas que vão fazer a cabeça da galera é a mesma que levou a tempestade pro Rio. No domingo a noite serão milhares de surfistas felizes e milhares de famílias desabrigadas. Que paradoxo...triste.
E pela primeira vez me senti culpado por pensar e planejar meu surfe. Como aproveitar uma onda sabendo que no estado ao lado as pessoas estão lutando pela vida. Eu jogando água aqui e a água jogando as pessoas lá. Nós, remando pra dentro e eles remando pra fora d´água.
Fiquei horas com isso martelando minha cabeça. Nunca tinha parado pra pensar sobre o assunto. É claro que não temos culpa por todo esse desastre natural ou pelas casas construídas indevidamente no Rio. Mas é que nós passamos o tempo todo implorando, pedindo a deus(ou seja lá o que for) para que nos mande boas ondas e, na nossa costa, geralmente e infelizmente, só temos valas consideráveis com a aproximação de alguma frente fria ou abalo descomunal. E nunca pensamos se isso pode trazer problema a outras pessoas.
Bom, não sei até que ponto isso pode ser considerado egoísmo ou se é tudo mais uma viagem da minha mente...mas, na sexta-feira, quando colocar minha prancha na água vou me lembrar que nem todo mundo tá feliz e nenhum problema, além dos meus, será solucionado...
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